sábado, 19 de abril de 2014

O discurso de Gabriel García Marquez ao receber o Nobel

 

O discurso de Gabriel García Marquez ao aceitar o prêmio Nobel de Literatura de 1982, texto original em espanhol, no http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1982/marquez-lecture-sp.html.

Aqui publico a tradução feita por Selma Villela:


A solidão da América Latina

Antonio Pigafetta, navegador florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem ao redor do mundo, escreveu em sua passagem por nossa América do Sul uma crônica rigorosa que no entanto parece uma aventura da imaginação. Contou que havia visto porcos com o umbigo no dorso, e uns pássaros sem pés cujas fêmeas chocavam nas costas do macho, e outros como alcatrazes sem língua cujos bicos pareciam uma colher. Contou que havia visto uma criatura com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo, patas de veado e relincho de cavalo. Contou que ao primeiro nativo que encontraram na Patagônia lhe colocaram em frente um espelho, e que aquele gigante exaltado perdeu o uso da razão pelo pavor com sua própria imagem.

Este livro breve e fascinante, no qual já se vislumbram os germes de nossos romances de hoje, não é nem muito menos o testemunho mais assombroso de nossa realidade daqueles tempos. Os Cronistas das Índias nos legaram outros incontáveis. Eldorado, nosso país ilusório tão cobiçado, apareceu em numerosos mapas durante longos anos, mudando de lugar e de forma segundo a fantasia dos cartógrafos. Em busca da fonte da Eterna Juventude, o mítico Alvar Núñez Cabeza de Vaca explorou durante oito anos o norte do México, numa expedição fanática cujos membros comeram-se uns aos outros, e só chegaram cinco dos 600 que a empreenderam. Um dos tantos mistérios que nunca foram decifrados, é o das onze mil mulas carregadas com cem libras de ouro cada uma, que um dia saíram de Cuzco para pagar o resgate de Atahualpa e nunca chegaram a seu destino. Mais tarde, durante a colônia, vendiam-se em Cartagena de Índias umas galinhas criadas em terras de aluvião, em cujas moelas eram encontradas pedrinhas de ouro. Este delírio áureo de nossos fundadores nos perseguiu até há pouco tempo. Apenas no século passado a missão alemã encarregada de estudar a construção de uma ferrovia interoceânica no istmo do Panamá, concluiu que o projeto era viável com a condição de que os trilhos não fossem feitos de ferro, que era um metal escasso na região, mas que se fizessem de ouro.

A independência do domínio espanhol não nos pôs a salvo da demência. O general Antonio López de Santana, que foi três vezes ditador do México, fez enterrar com funerais magníficos a perna direita que havia perdido na chamada Guerra dos Bolos. O general Gabriel García Morena governou o Equador durante 16 anos como um monarca absoluto, e seu cadáver foi velado com seu uniforme de gala e suas condecorações sentado na cadeira presidencial. O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teólogo de El Salvador que fez exterminar em uma matança bárbara 30 mil camponeses, havia inventado um pêndulo para averiguar se os alimentos estavam envenenados, e fez cobrir com papel vermelho a iluminação pública para combater uma epidemia de escarlatina. O monumento ao general Francisco Morazán, erguido na praça principal de Tegucigalpa, é na realidade uma estátua do marechal Ney comprada em Paris num depósito de esculturas usadas.

Há onze anos, um dos poetas brilhantes de nosso tempo, o chileno Pablo Neruda, iluminou este local com sua palavra. Nas boas consciências da Europa, e às vezes também nas más, irrompeu desde então com mais ímpeto que nunca as notícias fantásticas da América Latina, essa pátria imensa de homens alucinados e mulheres históricas, cuja obstinação sem fim se confunde com a lenda. Não temos tido um instante de sossego. Um presidente prometeico entrincheirado em seu palácio em chamas, morreu lutando sozinho contra todo um exército, e dois suspeitos desastres aéreos nunca esclarecidos ceifaram a vida de outro de coração generoso, e a de um militar democrata que havia restaurado a dignidade de seu povo. Houve 5 guerras e 17 golpes de estado, e surgiu um diabólico ditador que em nome de Deus leva a cabo o primeiro etnocídio da América Latina em nosso tempo. Enquanto isso, 20 milhões de crianças latino-americanas morriam antes de completar dois anos, que são mais do que as que nasceram na Europa desde 1970. Os desaparecidos por motivos da repressão são quase 120 mil, que é como se hoje não se saiba onde estão todos os habitantes da cidade de Upsala. Numerosas mulheres grávidas foram presas, deram à luz nos cárceres argentinos, mas ainda se ignora o paradeiro e a identidade de seus filhos, que foram dados em adoção clandestina ou internados em orfanatos pelas autoridades militares. Por não querer que as coisas continuem assim foram mortos cerca de 200 mil mulheres e homens em todo o continente, e mais de 100 mil pereceram em três pequenos e voluntariosos países da América Central, Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Se isso ocorresse nos Estados Unidos, a cifra proporcional seria de um milhão e seiscentas mil mortes violentas em quatro anos.

Do Chile, país de tradições hospitaleiras, fugiram um milhão de pessoas: 12 por cento de sua população. O Uruguai, uma nação minúscula de dois milhões e meio de habitantes que se considerava como o país mais civilizado do continente, perdeu no exílio um de cada cinco cidadãos. A guerra civil em El Salvador causou desde 1979 quase um refugiado a cada vinte minutos. O país que se poderia criar com todos os exilados e emigrantes forçados da América Latina, teria uma população mais numerosa que a da Noruega.

Me atrevo a pensar, que é esta realidade descomunal, e não só sua expressão literária, a que este ano mereceu a atenção da Academia Sueca das Letras. Uma realidade que não é a do papel, mas que vive conosco e determina cada instante de nossas incontáveis mortes cotidianas, e que sustenta um manancial de criação insaciável, cheio de infelicidade e de beleza, do qual este colombiano errante e nostálgico não é mais do que um indivíduo mais assinalado pela sorte. Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todas as criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito pouco à imaginação, porque o desafio maior para nós foi a insuficiência dos recursos convencionais para fazer crível nossa vida. Este é, amigos, o nó de nossa solidão.

Pois se estas dificuldades nos entorpecem, que somos de sua essência, não é difícil entender que os talentos racionais deste lado do mundo, extasiados na contemplação de suas próprias culturas, se tenham encontrado sem um método válido para nos interpretar. É compreensível que insistam em medir-nos com a mesma vara com que medem a si mesmos, sem recordar que os estragos da vida não são iguais para todos, e que a busca da identidade própria é tão árdua e sangrenta para nós como foi para eles. A interpretação de nossa realidade com esquemas alheios só contribui para fazer-nos cada vez mais desconhecidos, cada vez menos livres, cada vez mais solitários. Talvez a Europa venerável fosse mais compreensível se tratasse de ver-nos em seu próprio passado. Se recordasse que Londres precisou de 300 anos para construir sua primeira muralha e outros 300 para ter um bispo, que Roma se debateu nas trevas da incerteza durante 20 séculos antes que um rei etrusco a fizesse entrar para a história, e que ainda no século XVI os pacíficos suíços de hoje, que nos deleitam com seus queijos suaves e seus relógios impávidos, ensanguentaram a Europa como soldados mercenários. Ainda no apogeu do Renascimento, 12 mil mercenários a soldo dos exércitos imperiais saquearam e devastaram Roma, e passaram à faca oito mil de seus habitantes.

Não pretendo encarnar as ilusões de Tonio Kröger, cujos sonhos de união entre um norte casto e um sul apaixonado exaltava Thomas Mann há 53 anos neste lugar. Mas creio que os europeus de espírito esclarecido, os que lutam também aqui por uma pátria grande mais humana e mais justa, poderiam ajudar-nos melhor se revisassem a fundo sua maneira de nos ver. A solidariedade com nossos sonhos não nos fará sentir menos sós, enquanto não se concretize com atos de apoio legítimo aos povos que assumam a ilusão de ter uma vida própria na divisão do mundo.

A América Latina não quer nem tem porque ser uma peça de xadrez sem arbítrio, nem tem nada de quimérico que seus desígnios de independência e originalidade se convertam em uma aspiração ocidental. Não obstante, os progressos da navegação que reduziram tantas distâncias entre nossas Américas e a Europa, parecem haver aumentado em troca nossa distância cultural. Por que a originalidade que nos admitem sem reservas na literatura se nos nega com todo tipo de suspeitas em nossas tentativas tão difíceis de mudança social? Por que pensar que a justiça social que os europeus avançados buscam alcançar em seus países não pode ser também um objetivo latino-americano com métodos distintos em condições diferentes? Não: a violência e a dor desmedidas de nossa história são o resultado de injustiças seculares e amarguras sem conta, e não uma conspiração urdida a 3 mil léguas de nossa casa. Mas muitos dirigentes e pensadores europeus acreditaram nisso, com o infantilismo dos avós que esquecem as loucuras frutíferas de sua juventude, como se não fosse possível outro destino que viver à mercê dos grandes donos do mundo. Este é, amigos, o tamanho de nossa solidão.

No entanto, frente à opressão, ao saque e ao abandono, nossa resposta é a vida. Nem os dilúvios nem as pestes, nem a fome nem os cataclismos, nem sequer as guerras eternas através de séculos e séculos conseguiram reduzir a vantagem tenaz da vida sobre a morte. Uma vantagem que aumenta e se acelera: cada ano há 74 milhões mais de nascimentos do que mortes, uma quantidade de novos vivos como se aumentasse sete vezes a cada ano a população de Nova York. A maioria deles nasce nos países com menos recursos, e entre estes, é claro, os da América Latina. Por outro lado, os países mais prósperos conseguiram acumular poder de destruição suficiente para aniquilar cem vezes não só a todos os seres humanos que já existiram até hoje, como também todos os seres vivos que passaram por este planeta de infortúnios.
Um dia como o de hoje, meu mestre William Faulkner disse neste lugar: “Me nego a admitir o fim do homem”. Não me sentiria digno de ocupar este lugar que foi seu se não tivesse a consciência plena de que pela primeira vez desde as origens da humanidade, o desastre colossal que ele se negava a admitir há 32 anos é agora nada mais que uma simples possibilidade científica. Ante esta realidade surpreendente que através de toda a existência da humanidade devia parecer uma utopia, os inventores de fábulas que em tudo cremos nos sentimos no direito de crer que não é demasiado tarde para empreender a criação da utopia contrária. Uma nova e arrasadora utopia da vida, onde ninguém possa decidir pelos outros até a forma de morrer, onde verdadeiramente seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham por fim e para sempre uma segunda oportunidade sobre a terra.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Ontem e Hoje

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

Carlos Lacerda, governador da Guanabara, com Vernon Walters, adido militar norte-americano.
 
Carlos Lacerda, orador loquaz, porta-voz emblemático do pensamento conservador brasileiro, conspirador obsessivo contra a legalidade democrática, tinha um mérito, dizia o que achava sem meias palavras.
Promoveu vários movimentos golpistas em sua trajetória política, sendo o principal responsável pela violenta campanha para derrubar Getúlio Vargas e assaltar o poder central, sustado pelo suicídio de Vargas que provocou uma onda de revolta popular que varreu as ruas do País em especial o Rio de Janeiro, então a capital da República.

Durante a campanha de Juscelino Kubistchek à presidência Lacerda afirmou: Juscelino não podia ganhar a eleição, se ganhasse não podia tomar posse, se tomasse posse não se devia deixá-lo governar.

Além disso, foi um dos articuladores centrais da abrangente conspiração civil-militar de empresários, latifundiários, multinacionais, banqueiros, comerciantes, religiosos, intelectuais, grande mídia, associados ao governo norte-americano, à CIA, que deflagrou o golpe de Estado contra o presidente Jango em 1964.

O sonho de Carlos Lacerda em tornar-se presidente da República, através do voto ou das armas, nunca se concretizou. Foi cassado pelo AI5 em 1968 aderindo depois à Frente Ampla Democrática ao lado de Jango e Juscelino morrendo no final da década de 70 assim como os dois ex-presidentes, em situações obscuras, suspeitas, ainda não esclarecidas.

Já o seu discurso antinacional, antipopular continua presente porque, mais que de Lacerda, são fundamentos retrógados de uma parcela das elites íntima dos interesses econômicos, geopolíticos forâneos, especialmente norte-americanos, visceralmente contrários ao desenvolvimento econômico independente, às reformas estruturais, sociais reclamadas como necessidades históricas a um Brasil soberano, próspero e solidário.

Apesar de condições distintas em virtude do processo de concentração, centralização do capital global, do monopólio mundial das comunicações digitais, da grande mídia hegemônica, esses setores hoje “modernizados”, adequados ao século XXI, revelam idênticas motivações ideológicas de antes.

Exigindo do povo brasileiro firme disposição de luta na defesa da soberania nacional, das reformas sociais, legalidade constitucional, democrática, todas sob ameaças na presente conjuntura do País.

Lacerda com metralhadora durante o golpe, no Palácio da Guanabara.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

ZunZuneo

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

O mais recente dos movimentos promovidos pelos Estados Unidos em termos de ações de espionagens, sabotagens, provocações, atividades desestabilizadoras contra a legalidade constitucional, soberana das nações transformou-se em escândalo internacional.
Foi o caso em Cuba, com a implantação clandestina pela CIA de programas para as redes sociais assemelhados ao Twitter, denunciada em entidades internacionais, que tinham o propósito já confessado de aliciar setores sociais, especialmente entre a juventude.

Para fomentar convulsões na sociedade cubana monitoradas por entidades como a Freedom Foundation, uma “escola de insurgências” dirigida pelos serviços secretos dos EUA agindo febrilmente em vários continentes e na América Latina.

Baseados em Países da América Central, esses programas chamados de ZunZuneo e Piramideo tinham e mantêm como estratégia a formação profissionalizada de ativistas em camadas da sociedade, na juventude, a preparação de táticas de sublevações através de facções militarizadas, depredações de órgãos públicos, surtos psicossociais de revoltas, fabricação de tempestades de convulsões coletivas indefinidas etc.

As ações do governo norte-americano não são inéditas, vêm sendo aplicadas em vários Países sob a orientação direta dos seus órgãos de inteligência atuando onde interessa à sua política externa para inviabilizar Estados, governos soberanos não subalternos aos seus ditames imperiais.

Ao lado desses projetos cibernéticos agem a grande mídia hegemônica, o capital financeiro, o rentismo, as elites internas retrógadas de cada País como na Venezuela violentamente bombardeada pela mídia e as tais facções na tentativa de um golpe de Estado.

A abrangência das “insurgências democráticas espontâneas” que substituem golpes armados, financiadas a distância, tal como os drones militares, é geral. No Brasil já foi testada em 2013, como ensaio geral, com o apoio da mídia monopolista que continua usando pesquisas fabricadas, terrorismo econômico, boataria intensa, notícias plantadas etc.

Assim o que se encontra em jogo é a soberania do Brasil, nossos fabulosos recursos naturais, o direito do povo brasileiro decidir soberanamente seu destino, os caminhos do futuro. E nesse terreno pantanoso, minado, não há espaço para ingenuidades ou políticas aventureiras.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Caminhos sinuosos

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

Não há na História contemporânea registro de algum povo que tenha alcançado elevados patamares de melhores condições de vida sem defrontar-se com três questões fundamentais: o desenvolvimento econômico, a emancipação social das grandes maiorias deserdadas do futuro, submetidas a brutais, seculares tipos de exploração, associadas à reafirmação da soberania nacional.
As épocas, os cenários geopolíticos e internos alternam-se mas os três fatores determinantes estão presentes. Quanto ao Brasil se usarmos uma metáfora assemelha-se ao gigantesco rio Amazonas, nutrido por seus afluentes caudalosos, ora remanso, em outros lugares suas águas são espantadas, brumosas prenunciando as corredeiras.

Assim tem sido desde os tempos mais remotos da nossa jovem História, nas lutas anticoloniais contra Portugal, nas batalhas contra a escravidão negra transformadas em poemas insurgentes por Castro Alves, nos duros embates contra o velho colonialismo britânico, o atual imperialismo norte-americano, os combates em defesa das liberdades democráticas, como na ditadura civil-militar de 1964 etc.

No presente continuam indeclináveis os esforços para a reafirmação do desenvolvimento econômico independente, voltado à produção da imprescindível riqueza do País.

Que impulsione as mudanças estruturais, reverta uma dívida social histórica que é uma vergonha moral, exigindo salto definitivo à nossa alma latino-americana lavrada em sangue índio, negro e ibérico, e os demais que os sucederam.

Nós somos ao contrário que certas elites externas, internas difundem, herdeiros dessa trajetória libertária, sofrida porém grandiosa porque é a nossa identidade, acumulamos um contínuo histórico, antropológico, cultural, artístico, inventivo, singular como experiência e aventura humana.

Hoje enfrentamos como os demais povos emergentes, os queridos irmãos latino-americanos, adversários cínicos, violentos, que usam sob novas formas bilionários recursos, atuam diuturnamente para sabotar o nosso inalienável, solidário direito ao sol entre as nações do mundo.

Essas forças do atraso, do capital financeiro, do rentismo utilizam-se de uma brutal máquina, o complexo midiático hegemônico, almejam o caos, a fragmentação social, ingovernabilidade, o autoritarismo, a onda neofascista que eles lançam ao planeta.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Os idos de Abril

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

O golpe contra o governo constitucional de João Goulart em 1964 foi resultado de uma complexa articulação de militares, amplos segmentos conservadores das grandes elites brasileiras, empresas multinacionais, desde o segundo mandato de Getúlio Vargas, abortado por seu suicídio em 1954 provocando grande revolta social que varreu as ruas das grandes cidades, em especial o Rio de Janeiro então capital da República, contra as forças retrógadas, antinacionais.
Através de entidades golpistas, como IPES, o IBAD, montou-se uma sofisticada rede de doutrinação, propaganda, finanças, com apoio de banqueiros, empresários, latifundiários, intelectuais, setores médios, religiosos, grande mídia, todos da linhagem conservadora.

Sob a capa da Guerra Fria, essas frações das elites aliaram-se às intensas atividades ilegais da CIA no Brasil contra “a ameaça comunista à família, à propriedade”.

A divulgação pelo IBOPE que o governo Jango tinha 60% de apoio social mostra que esses segmentos promoveram acirrada perseguição política contra os trabalhadores, estudantes, sindicalistas para a desestabilização constitucional do País.

Diz o historiador Juremir Machado que só na 1ª semana do golpe 10 mil pessoas foram presas, depois 113 senadores, deputados federais, 190 deputados estaduais, 38 vereadores, 30 prefeitos cassados, servidores públicos compulsoriamente demitidos etc.

O único jornal diário de grande circulação nacional à época que se opôs ao golpe foi Última Hora, os demais apoiaram, seguido pelo Correio da Manhã que passou à resistência, logo asfixiado sem publicidade.

Com o AI5 o arbítrio cresceu em ferocidade exigindo luta titânica até a vitória democrática em 1985.

Mas além da conhecida vertente militar foi decisivo ao golpe a presença de extratos da sociedade civil sob a liderança das classes dominantes avessas às reformas sociais, da grande mídia que hoje é hegemônica e refratária ao desenvolvimento do País, íntima do rentismo, da Nova Ordem Mundial.

A vida mostra que nas atuais condições históricas de domínio do capital financeiro, da agressividade geopolítica imperial dos Estados Unidos, cabe ao povo brasileiro intensa organização, constituir ampla unidade em defesa da sua soberania, das liberdades políticas através de grandes mobilizações e muita lucidez política.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Ameaça neofascista

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

Como todos podem ver, nuvens carregadas estão se acumulando sobre o mundo em todos os continentes, em alguns de maneira dramática, em outros prenunciando a eventualidade de fortes tempestades.
Ao contrário do que os arautos do neoliberalismo propagavam no auge da sua implementação no início da década de noventa passada nós não vimos o “fim da História, uma época de harmonia, paz, num planeta sem fronteiras” anunciados por Francis Fukuyama guru da ortodoxia neoliberal reinante.

O que estamos vivendo desde então, como tragédia em vários sentidos, é sem dúvida o Terror e uma brutal hegemonia do Mercado, do rentismo aliado ao gigantismo de um império, o norte-americano.

Que anulou os grandes paradigmas culturais reconquistados pelos povos após a 2ª Guerra Mundial, impondo em seu lugar a violência, mentira, cinismo, a insânia, numa regressão dos altos valores universais da civilização humana.

É nessa crise civilizacional que estamos metidos associada ao fenômeno da concentração do poder da informação, monopólio ideológico, manipulação de consciências, modos, consumos, da grande mídia internacional íntima dos objetivos do capital rentista, da Nova Ordem mundial.

Mas na mesma época também surgiu a resistência das nações sob a liderança dos BRICS que se opõem a esse mundo unipolar, à agressão contra os Países, resultando daí a multipolarização geopolítica, aumentando o ranço belicista dos EUA, do capital financeiro que passou a assumir caráter neofascista.

No Brasil setores da mídia hegemônica também incorporam esse viés neofascista mas sempre mesclando o discurso antipopular, antinacional com uma falsa aparência radicalizada, ultrista, como se não tivessem sido gestadas e consolidadas no seio da longa noite do arbítrio, da qual nos livramos há 29 anos, sequiosas de formar um campo social, atrair os desavisados, ingênuos, arrivistas ou mesmo os provocadores numa ânsia pela reedição farsesca de novos cabos Anselmos.

Nesse tabuleiro de xadrez global e regional minado é vital a consequência de todos os democratas, independente de opções ideológicas, a defesa da legalidade constitucional, das liberdades políticas, conquistadas através de muita luta, sofrimento, tanto quanto da nossa pátria que não se encontra imune a essa tormenta obscurantista que ameaça os povos.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Tempos decisivos

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

O cenário geopolítico global vem se tornando cada vez mais instável em decorrência de um gigantesco embate entre um mundo unipolar submetido aos ditames do Mercado, da sua guarda pretoriana, os Estados Unidos, seus aliados da OTAN e as nações emergentes sob a liderança dos BRICS, que reivindicam outra realidade internacional multipolar com novos padrões econômicos, novas relações internacionais mais democráticas.
A diplomacia vai sendo exigida na medida em que se agudizam os conflitos fomentados pela Nova Ordem mundial que sentindo-se confrontada busca impor seus interesses econômicos, financeiros além da caçada implacável pela ocupação de novos territórios à expansão do Mercado, da guerra de rapina por recursos naturais não renováveis, como o recente exemplo da crise na Ucrânia, o intento golpista em curso na Venezuela.

Um quadro explosivo que espalha por todo lado conflitos políticos em muitos países gerando um clima de sérias instabilidades que podem se aguçar. Assim tem sido o caso do Brasil onde todos motivos tem sido usados para elevar tensões como, por exemplo, ao evento da Copa Mundial de Futebol que se avizinha exitosa.

Mas por isso sabotada através da grande mídia hegemônica, das redes sociais por essas forças externas e grupos internos que jogam nesse tabuleiro de xadrez contrários a um novo mapa internacional multipolar, adversários inclusive do protagonismo geopolítico do País, defendem a velha diplomacia da subordinação e alinhamento incondicional aos EUA, da dependência ao rentismo.

Porém existe outro fator de crise mundial, a possibilidade do estouro de nova bolha financeira, resultante da desregulamentação do capital especulativo global, acumulando uma gigantesca massa concentrada de riqueza fictícia sem lastro na economia real, e operada via o “shadow banking sistemy”, sistema bancário paralelo, que diante da eventualidade de novo cataclismo assume feroz caráter neofascista.

Assim a luta política, de ideias, anuncia-se complexa, renhida numa civilização sacudida por tempestades de convulsões difusas lançadas aos povos por esse Mercado. Impõe-se ao Brasil adotar serena mas firme posição em defesa da geopolítica multipolar, da democracia, garantia da sua soberania, integridade territorial, defesa dos seus fabulosos recursos naturais.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Poder global e política energética

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

Disse Freud, pai da psicanálise, que o contrário da brincadeira não é o sério, mas antes o que é real. E o que se anuncia como real é a possibilidade do estouro de uma nova bolha financeira mundial provocada pelo extraordinário processo de concentração, centralização do capital rentista.
Não há como separar as crise políticas, sucessivas intervenções militares contra os Países através de forças armadas capitaneadas pelos Estados Unidos, do estágio agressivo, predador a que chegou nos últimos tempos a hegemonia global das finanças parasitárias, a velocidade de suas bilionárias operações planetárias.

Junto a outros dois fatores centrais, o controle da informação sobre os povos através do monopólio internacional midiático cujo papel central é a difusão da versão dos fatos que interessam a esse capital rentista, somado ao desenvolvimento espetacular da cibernética, verdadeira revolução tecnológica, a serviço primordialmente das transações financeiras em escala mundial.

A utilização pelas sociedades de tecnologias, como a Internet, as redes sociais, resultam de subproduto da engrenagem dessa acumulação financeira, usadas como poder militar, ideológico, sobre as comunidades mas que, paradoxalmente, abrem novos espaços de comunicação individual, social ao largo dos monopólios da mídia porém vigiados, afinal Edward Snowden não é ficção científica.

O capital rentista que assume caráter neofascista, tudo faz para anular esperanças aos povos, aos emergentes como o Brasil, vistos como ameaça geopolítica à ditadura do Mercado, difunde fartamente conceitos pseudocientíficos cujas gêneses possuem razões auto justificáveis mas induzem à inércia econômica.

Assim o jornalista Ênio Lins em artigo na Gazeta de Alagoas aponta o dilema surreal imposto ao governo brasileiro pelo ambientalismo internacional fundamentalista que investe contra a construção da Usina de Belo Monte, repele a energia atômica, as termoelétricas e ainda ataca suposto déficit energético do País.

Desejam que uma nação industrial, continental, com 200 milhões de habitantes, sustente-se unicamente pela matriz eólica e solar que são alternativas, complementares. Na verdade trata-se de incentivo à paralisia econômica, subordinação aos centros globais de poder, abdicação da soberania nacional.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A defesa da nação

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

A nova ordem mundial, o Mercado financeiro internacional, continuam a impor a sua agenda aos povos mesclando massiva propaganda ideológica, verdadeira lavagem cerebral, com ações intervencionistas bélicas onde considerem que seus interesses estão sendo prejudicados ou em regiões em que se apresentam possibilidades expansionistas.
Assim é que avançam, como aves de rapina, contra a soberania de diversas nações como a Ucrânia submetida a brutal processo de desestabilização literalmente incendiada após as visitas do secretário de Estado norte-americano John Kerry, do senador republicano John McCain, que foram avalizar o golpe deflagrado dias depois.

Estudiosos da geopolítica dizem que o novo passo será o esquartejamento desse País já que metade da sua população, especialmente das regiões oriental e sul da Ucrânia, repudiam o golpe imposto por hordas de grupos armados, com antecedentes nazifascistas que remontam à expansão alemã-hitlerista na Segunda Guerra Mundial, fartamente financiados pelos Estados Unidos e União Europeia cujos motivos incluem a instalação de bases da OTAN além da incorporação de novos territórios ao Mercado e suas riquezas naturais não renováveis.

Expansão que se estende, como todos estão vendo, por várias regiões inclusive a América Latina onde o alvo central é a Venezuela virulentamente atacada pela grande mídia associada ao Mercado financeiro, aos Estados Unidos, através de grupos mercenários movidos a dólar treinados com o fim de arquitetar a ingovernabilidade, “legitimar” um governo provisório fantoche subserviente aos interesses dos EUA e do capital rentista.

O Brasil não se encontra ao largo dessa agressão movida pelo capital financeiro e sua guarda pretoriana, os Estados Unidos, ao contrário, está no foco mesmo que em um estágio ainda anterior ao da Venezuela, mas a crise estrutural do capital tende a agravar-se assim como já não se descarta o estouro de uma nova bolha financeira mundial e o Mercado deseja avançar sobre as riquezas do Brasil nação industrializada, detentora de fabulosas reservas naturais do planeta.

Assim impõe-se com firmeza a defesa da nossa soberania, a legalidade constitucional, liberdades democráticas, sob reais ameaças dessa nova ofensiva neofascista global encetada pelo Mercado, pelos Estados Unidos.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Soberania

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

Enquanto a Ucrânia arde em chamas, a Venezuela sofre ondas de turbulências golpistas, todos assistem à ofensiva dos Estados Unidos, guarda pretoriana do mercado, da governança mundial do capital financeiro global, contra a soberania das nações através de intervenções armadas que se multiplicam pelos continentes.
Seja onde for há sempre um pretexto para que se desloquem exércitos, frotas navais, força aérea contra algum País precedidos por um bombardeio de saturação midiática em escala jamais vista pela humanidade promovendo intensa lavagem cerebral contra as sociedades, fenômeno só possível porque em torno dos EUA e do Mercado há em simbiose uma verdadeira ditadura global na área das comunicações.

De tal sorte que o que prevalece não é o fato jornalístico mas a sua versão difundida através das poderosas cadeias de informação mundializadas sempre tendo como eixo central especialmente as grandes redes midiáticas norte-americanas e britânicas.

Assim ao contrário do que se diz nós não vivemos uma época de radicalização dos processos de democratização ao estilo universal ocidental clássico mas o seu inverso, uma intensa regressão civilizacional dos parâmetros democráticos conhecidos, submetidos aos objetivos essenciais desse mercado, do lucro insaciável do capital financeiro.

Da acumulação rentista que aumenta na exata progressão geométrica em que avançam sobre os Países os efeitos da crise capitalista mundial que sacudiu os Estados Unidos, Europa mas que atinge igualmente todas as nações inclusive os BRICS minando possibilidades de maior crescimento econômico, de um salto robusto ao desenvolvimento econômico, melhores condições sociais às suas populações.

O que está em curso é a tentativa de pilhagem dos recursos não renováveis, a subtração das riquezas produzidas pelos povos emergentes como o Brasil, a destruição dos pactos democráticos substituídos pelo autoritarismo, nem que para isso queiram transformar a realização de uma Copa Mundial de Futebol em teatro de operações de guerra monitorado pela CIA, promovido de forma milimétrica, planejada.

O Brasil jamais viveu outro período de tanta fecundidade democrática mas ele deve estar associado à defesa da soberania nacional, das liberdades políticas conquistadas com muitas lutas, sofrimento e dor em passado recente.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sementes do ódio

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

O criminalista Antônio Carlos Mariz de Oliveira diz que a sociedade brasileira encontra-se enferma em razão dessa onda indiscriminada de patologias de ódio generalizado.
Na verdade trata-se de um diagnóstico correto desde que esteja associado às razões dessa perigosa enfermidade social, o criminoso processo de regressão civilizatória imposto à humanidade nos últimos vinte anos através da ditadura do Mercado, da Nova Ordem mundial, da Governança Global, da grande mídia associada ao rentismo, difusora ideológica, política, dos padrões da barbárie coletiva, individual ditados aos povos inclusive ao Brasil.

Para que 1% da humanidade conseguisse acumular a exata metade da riqueza produzida pela soma de todos os demais indivíduos do planeta seria impossível a existência de um outro modelo de civilização que não fosse baseado na superexploração da mão de obra assalariada, na promoção de guerras de rapina dos recursos não renováveis dos Países.

Além da tentativa de supressão dos grandes valores universais construídos pela inteligência humana, que resistem em algum lugar na consciência dos povos, já denunciada na virada do século pelo historiador Eric Hobsbawm quando afirmou que as novas gerações estavam sendo forjadas em uma espécie de presente contínuo sem noção do passado mesmo o passado recente.

Essas são condições ideais, para não dizer perfeitas, ao desenvolvimento de movimentos nazifascistas que na História sempre representaram a forma mais agressiva do capital rentista à exploração das nações como das várias camadas sociais.

Os virulentos grupos mascarados que não brotam por geração espontânea “estreiam” no Brasil incitados pragmaticamente pela grande mídia para desestabilizar o governo federal, agora correm o risco de fugir ao controle dessas elites retrógradas mas desejosas de artifício golpista.

Mais que destruir a democracia, derrubar o atual governo federal legitimamente eleito, o Mercado, os EUA, apostam na fragmentação do tecido social, incentivam a luta de cada um contra todos e todos contra qualquer um, temendo que assaltado pela lucidez o povo brasileiro avance a um efetivo projeto de desenvolvimento nacional, erradique as históricas, abissais desigualdades sociais, construa através da democracia uma nação livre, soberana, desenvolvida, solidária.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A História nos ensina

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

 
A revelação das conversas do então presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, com o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, em pleno salão oval da Casa Branca confirmou os elementos, as provas do financiamento de uma conspiração contra João Goulart, o principal mandatário brasileiro nos idos dos primeiros anos da década de sessenta passada.
Na verdade, detecta-se o ódio a estigmatização contra Jango já na sua condição de Ministro do Trabalho do governo Getúlio Vargas muito mais pela singularidade de ser o herdeiro do trabalhismo de Vargas que pelo fato de decretar um aumento de 100% no salário mínimo dos trabalhadores resultando em sua demissão mas não na revogação do aumento concedido.
Daí foi implacável a perseguição política, o cerco sistemático de uma mídia conservadora, quando não abertamente golpista, iniciando-se na época a escalada hegemônica que se expressa abertamente nos dias atuais.

Jango foi deposto por uma conspiração civil-militar que esteve presente nas águas brasileiras com uma frota de navios de guerra e de um porta aviões dos EUA, na chuva de dólares para candidaturas oposicionistas em eleições gerais, na presença de milhares de agentes estadunidenses colhendo informações acobertados na “Aliança para o Progresso” onde deveriam hipoteticamente prestar serviços a programas sociais etc.

De acordo com recente livro publicado por Juremir Machado, doutor pela Universidade de Sorbonne “Jango, a vida e a morte no exílio” só na primeira semana pós golpe dez mil pessoas foram presas incluindo o ex-governador Miguel Arraes.

São cassados mandatos de 113 deputados federais, senadores, 190 deputados estaduais, 38 vereadores e 30 prefeitos, afastamento compulsório de vários ministros do Supremo Tribunal Federal através de atos institucionais discricionários com evidente intuito de alterar correlações de forças existentes iniciando uma trágica noite de arbítrio, censura que durou 21 anos.

Assim nas lutas políticas atuais o Brasil não pode ignorar o conhecimento histórico do passado recente sob pena de amnésico não compreender os fenômenos do presente para superá-los através de uma frente nacional, popular em defesa da democracia, do desenvolvimento independente e seu relevante papel no teatro geopolítico das nações neste século XXI.